O Refúgio da Infância
A vida nos campos refugiados Palestinianos na Jordânia
A Jordânia tem 13 campos de refugiados, dez dos quais estão sob administração da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados Palestinianos. É, no entanto, ainda indefinido quantos refugiados Palestinianos vivem, de facto, nos campos. O que parece mais definido, porém, é que, nestes redutos de sobrevivência, as crianças são responsáveis por milhares de sorrisos e são fonte de alegria, apesar das duras circunstâncias em que vivem e todo o contexto de violação de direitos humanos e vulnerabilidade.
Sabemos que é na infância que se constrói parte da nossa identidade, quando iniciamos os processos de socialização; é a fase em que iniciamos e alimentamos as nossas esperanças e os nossos sonhos. De alguma forma, a infância é um certo sentido de refúgio, um lugar intemporal onde todos já estivemos e aonde todos voltamos, em algum momento, ao longo da vida, como forma de escape ou retorno àquilo que somos.
António Morais é diretor de fotografia e viveu na Jordânia durante mais de um ano e meio. Através de amigos, ele teve a oportunidade de conhecer vários campos de refugiados na Jordânia como, por exemplo, Baqa’h, Widhat and Marka, todos perto de Amã. Nesse sentido, ele testemunhou que a infância no campo de refugiados é, não só fonte de força, fé e esperança, a razão principal de resiliência para muitas famílias, e também o leitmotiv para preservação da identidade Palestiniana. Ele aprendeu e reteve essa experiência, mas mais do que isso, sentiu que enquanto profissional que trabalha com a imagem, tinhanum dever moral e responsabilidade de fazer algo sobre o assunto. Refletir sobre isso fê-lo resgatar algumas fotografias que estavam esquecidas no arquivo pessoal. Bastou abrir algumas fotografias para ficar magnetizado pelos sorrisos e os olhares das crianças como se viajasse, de imediato, no tempo e recordando-se de cada momento, de cada clique. À medida que o convite para fazer uma exposição com algumas dessas fotografias sucediam, ano após ano, no Porto ele percebeu que estava na altura de fazer alguma coisa em relação a essas imagens. Talvez como forma de mudança social ou, pelo menos, desvelar histórias menos conhecidas e dar a conhecer que existem algumas instituições que são um canal direto na assistência a esta realidade. Ele pretende ser uma ponte para elas.
Por que razão agora?
Para nós, ocidentais, o Natal é, também, uma época associada a partilha, generosidade e reconciliação. Podemos, sem dúvida, considerar discutível estes substantivos, mas pelo menos que se use a época para se relembrar sobre a importância da concretização plena dessas ideias, e dar visibilidade às questões de vulnerabilidade, em tempos de fartura. É por isso que o António decidiu fazer uma exposição com estas fotografias, para promover a conscientização sobre crianças apátridas como os refugiados Palestinianos (uma realidade com a qual ele conviveu) nesta altura do ano. Nesse sentido, o propósito principal desta exposição é retratar um pouco da vida quotidiana num campo de refugiados.
Texto Vanessa Rodrigues (jornalista, escritora e documentarista)